Adaptações

Durmo com uma planta no meu quarto desde há muitos anos. Começou como uma espécie de desafio infantil à crença escolar de que os vegetais chucham o oxigeno e podes ficar sem ar de noite, he. Eu sou é um atrevido e por enquanto sempre acordei com os pulmões cheios, sem importar o pequena que fosse a habitação ou grande a planta (que as duas mudaram avondo). Aliás, o meu razoamento maluco foi que se as plantas consumem um bocado de oxigeno e fam que custe mais respirar… o efeito no corpo pode ser até positivo porque é como um género de adestramento físico nos momentos de menor consumo energético do dia. Contudo, agora estou preocupado porque a minha companheira de quarto cresceu demasiado e o vaso ficou pequeno. Ontem sonhei com que as raízes se expandiam fora da terra, subiam polos pés da cama arriba e começavam a tirar os nutrientes necessários das minhas veias como se fosse a invasão dos ultra-corpos, glup. Sei que não tenho nada a temer porque a pobre não tem mais ninguém no mundo e os boas parasitas jamais matam um hospedeiro sem ter outro pronto.

Identidades de Reserva

Custa-me entender bem esses filmes yankees onde o psico de moda vai mudando de identidade sem nenhum problema – normalmente adoptando a das suas vitimas ainda não descobertas polos investigadores de rostos perfeitos –. Assim deveria ser sempre, excepto polo dos crimes e tal.

Entretanto, neste Estado os sistemas de identificação pessoal funcionam tão perfeitamente que qualquer fugida parece impossível, levamos um bilhete de identidade travado nos dentes – pola nossa própria seguridade – até a morte… já logo não poderás ir mijar sem que algum Agente da Autoridade das Casas de Banho (AACB) reclame o dito bilhete… É inevitável, porque as cousas apoderam-se das vidas e ampliam a sua utilidade exponencialmente e sem pedir licenças. As novas necessidades sempre existiram – primeira lei da termodinâmica -, mas são activadas na altura das possibilidades técnicas.

Eliminar as provas

Como não suporto as despedidas sempre vou na estratégia do covarde. Deixo uma nota ou alguma mensagem dizendo que sinto muitíssimo que tudo termine deste jeito (seja o jeito como for, quase nunca é para bem). É uma mágoa não podermos compartilhar mais tempo, seguiremos em contacto, etc, escreve ao email, telefona-me, agora não há distâncias, logo terás férias e voltarás, eu poderia ir alguma vez e outras mentiras.

Só que as mentiras sempre volvem, podem passar-se semanas, meses ou anos. Quanto mais tempo é pior, porque são como uma onda de tsunami que vai pegando força e força e quando chega às minhas costas arrasa-me. É o surpreendente o que acontece com a memória das pessoas; a tendência natural, eu penso que de auto-proteção, é só seleccionar os bons velhos momentos. Mas isto não quer dizer que esqueçam o demais, e quando fam memória de verdade, oi rapaz, aí é que tens um problema. No mundo real não existem elixires que apaguem memórias, e não tenho orçamento para contratar serviços secretos que eliminem as provas físicas, ou agentes de imprensa a defendarem a minha reputação.

Já não sei que queria dizer com isto.

/hiatus off

Após este breve intre de não publicidade, continuamos com as nossas emissões habituais. Stay tuned.

Serenidade e aulas de tiro

Será tudo afinal uma questão de mecânica darwiniana? Tão simples, até seria um consolo. Demonstraria que as minhas limitações são uma forma de desafiar a competência, e um ponto de apoio imprescindível na superação global. A minha importância vem da minha inutilidade. Superação, esforço, enfim, só são palavras no nada, sempre haverá um comboio que pegar ou outro polo que ser atropelado, e é entre esses dous caminhos que caminhamos cegos mas berrando bem alto, ainda bem. O negócio é tropeçar com o trilho certo.

Diga-se a verdade, penso muito mais no velho Buck que no pobre Darwin. Polos vistos os dous compartilham um futuro à margem dos cárceres de dia para miúdos. Bahn, nem que importe, mas assim é como rola o assunto. «Don’t try», a lápida buckowskiana que cai sobre nós mim. A maioria de admiradores do Bêbedo (com maiúsculas, é claro) têm muitos problemas para desligar o autor da personagem, acho que eu já adiantei essas teimas. Buck não era Chinasky mas transformou muita gente em chinaskies andantes, tem mérito aí. Há que levar cuidado com estas cousas. É como nadar numa praia a mar aberto, fora da ria. Sensacional, espantoso, genial. Mas perigoso, as ondas podem levar onde não podes volver, sem forças para o regresso. Ou pior, não quererás volver.

Sem sombra de dúvida esta metamorfose deve ser toda uma tragédia para o nosso sistema educativo: chinaskies não enrolam nas forças armadas, não pagam tantos impostos, e no melhor dos casos riem ou ignoram a realidade (televisiva ou não). O tempo já não existe: comprou-no a industria do automóvel para anunciar os seus produtos, carros imprescindíveis para gente prescindível.

Sem jeito…

ai, tantos dias sem nenhum jeito por cá. Sinto que estou a afogar entre a minha poeira privada e, o que já é inadmissível, no remoinho de tormentos e angustias fingidas que entra pola janela. Nasces um lamúrias e morres um lamúrias, isso é o único que eu diria sobre o tema. Agora vim a descobrir que não som o único com tempo a perder em jogos sem importância, há milhões de pessoas bem-dispostas para serem cavalos dum ginete fantasma. Olhem as esporas, o pony express nunca descansa, cartas em círculos sem começo e sem final.

Qual é a melhor forma de solucionarem os conflitos? Antigamente cada bando escolhia um representante e fazia uma justa de Deus, lim sobre isto algures mas já não lembro o que faziam com o bando perdedor, fora de cagar na memória do seu caído. Talvez arrumavam as malas e iam outra parte, ou deixavam que o vento de deserto os enterrasse até a desaparição como fai com todos nós. Com tranquilidade. Anyway, era um método neolítico afastado da nossa mentalidade post-post-modernista, não há bandos mais, há exércitos de um contra o mundo, o que já parece um combate desigual desde o começo. A nossa desaparição futura não terá tantas redes de seguridade, felizmente. Adiantamos muito desde aquela.

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Um peão niilista do xadrez decidiu desobedecer as ordens dos seus generais. Estourou uma bomba e matou os dous cavalos, um bispo preto, e uma torre branca. O rei e a rainha brancas foram feridas e estão fora de perigo. Deixou uma nota: conta que há estranhas razões que convertem a alma em dinamita e a dinamita em corpo. E que tinha a necessidade de alumear a noite por uma vez. A partida foi suspensa até encontrarem substitutos.

Hipnótico

Hoje chovia tanto e ia tanto frio, tanto vento,… realmente não deveria ter saído mas já levamos na monção galega quanto tempo? Dez ou quinze anos, por aí. Assim que fum dar uma voltinha, bah, pensei que um momento e de volta ao queli mas não sei que aconteceu. Só sei que estava a pensar nas gotas que me baixavam polo lombo, estava como concentrado, pedalando e sentindo não só a habitual dor da falta de treinamento (muitos dias sem sair) mas a auga entrando e filtrando-se no meu corpo, só sentia a auga fundindo-se com o sangue e circulando por fora e por dentro, e às vezes também dizia: oh, que merda de roupa, que merda de pele, que frio tenho e de supetão descobrim que estava tão longe de casa. Tão longe, como chegara lá? Enganou-me o vento a favor, hipnotizaram-me as poças. Dei a volta, subim o monte e quando cheguei ao topo

continuei subindo.

La vera forza

Imaginas que as câmaras municipais fossem como pequenos Estados independentes?

Cada concelho estabeleceria regras sobre a cidadania dos seus moradores, diria quem tem direito (e obriga) a um bilhete de identidade permanente por uma questão de sangue e não de residência. A imigração estaria fortemente controlada e haveria controlos em todas as fronteiras. Para ir de Santiago a Corunha haveria que conseguir quatro ou cinco visados, embora fosse possível chegar a um acordo de livre circulação de trabalhadores. Os imigrantes ilegais seriam considerados perigosos, detidos – no sistema penitenciário municipal – e largados de volta ao seu concelho natal. Os apátridas teriam um regime especial e seriam esquecidos tranquilamente.

Estudar ou trabalhar fora seria complicado, só possível após ultrapassar várias barreiras burocráticas. Cada prefeitura contaria com embaixadas noutros concelhos para ajudar os vizinhos que estivessem a morar em concelhos estrangeiros – com todas as travas administrativas criadas polo próprio concelho.

Alguns autarcas seriam também automaticamente chefes de Estado, outros seriam eleitos numa votação diferente para este posto simbólico, e finalmente haveria outros que seriam Reis por desígnio divino e os seus descendentes herdariam o cargo indefinidamente. Estes últimos falariam sempre duma pretensa dignidade histórica como garante do seu status. Todos teriam um exército próprio. Fariam desfiles com bandeiras, tanques, aviões, militares desfilando na rua principal do povo sob as salvas de palmas dos seus vizinhos. Alguns concelhos teriam armas de destruição maciça como garantia da paz comarcal. Os mais poderosos seriam observados com receio polos lideres dos menos poderosos, e os lideres dos menos poderosos desconfiariam também dos mais poderosos. O medo estender-se-ia entre os cidadãos, que estarão a argalhar contra nós além da fronteira?

Os vereadores concordariam na importância de defender a soberania política, económica, cultural, militar, e afastariam interesses partidistas polo «bem municipal». Planeariam campanhas para atrair a inversão estrangeira mas também para manterem os sectores ditos estratégicos nas mãos dos empresários locais. O déficit comercial municipal seria combatido como um cancro.

Os media só informariam dos resultados dos representantes municipais, e ignorariam qualquer atenção a desportos onde não destacarem os seus heróis. As obras culturais locais teriam sempre um destaque não pola sua provável qualidade mas apenas por serem. Excepto uma pequena parte dele, o mundo seria ignorado.

Controlariam o ar e a terra e umas poucas milhas marítimas, as ondas radiofónicas, a ilegalidade da tristeza e a tolerância da alegria, o reparto da miséria, os prémios e os castigos, a voluntariedade e a obrigatoriedade, a expressão e a censura, o município espera cada homem cumprir o seu dever conforme ao decreto municipal 23/5347. Tudo seria imaginário e calado, excepto o poder. Os concelhos não seriam considerado de nenhum jeito um meio. Seriam fins, seriam em tão pouco valor um meio para os seus habitantes que se for preciso sacrificariam a sua existência por ele.

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