Costumes

Centro comercial, um desses Mall americanos que antes víamos nos filmes, antes de que se começassem a construir também na Galiza (e também nos planetas vizinhos) para contribuírem à confusão geral na batalha secreta entre a realidade e a ficção. O típico, adolescentes e post-adolescentes que assistem o último filme sobre crimes policiais modernos (sector: salas de cinema), casais que fam compras no super (sector: alimentação), parelhas mais novas e grupos de moças que assaltam as rebaixas (sector: têxtil), gente que passeia (sector: ladrilhos).

Um homem vulgar (sector: impacientes) de pé no médio da rua interior falsificada parece falar com os seus botões. Espera pola sua mulher (sector: conversa) que, dous passos por diante, está a falar (e não com os botões senão polos cotovelos e incansavelmente) com uma sua conhecida. Teoricamente o homem está a cuidar também da filha dos dous, mas isso apenas significa ter um olho posto no banco próximo, nessa figura que chama de filha (sector: autismo). Nada do que se preocupar, na realidade. Antes de ter filhos sonhara com algum dos problemas previsíveis que pode dar um cativo ou uma cativa: digamos que brigas no colégio, choros e protestos, a vontade ganha de levar a contrária sempre, por aí. Uma imitação ou aproximação da sua própria infância. Não deu assim, e a sua filha aborrece-os com todas as suas forças mas não é das que armam sarilhos, limita-se a ficar em silêncio e a tratar seus país como dous cuidadores provisionais não especialmente dotados. Uns aos que há explicar tudo devagarinho em frases curtas e lacónicas.

Assim que fica à espera entre uma filha que o ignora e uma mulher que já não sente a necessidade de introduzi-lo nas conversas com outras pessoas. Nem nas suas próprias, diga-se a verdade. Porque já não fala com ele? Serviria com o mesmo que está a contar agora mesmo, e a uma pessoa que não verá mais em meses ou anos. Seja quem for, pouco interessada pode estar nos problemas para esquivar o engarrafamento da manhã ou a nova dieta da sua dona. Que diria ele de ter a ocasião? Depende, mas nunca uma resposta honesta. Estudaria o que se esperá de ele, e continuaria com um roteiro sem viradas chocantes, remataram os dias nos que se esperava ou suportava dele qualquer parvada criativa.

Pergunta-se se haverá muita gente como ele neste mesmo momento. Idiotas esperando que remate de vez uma conversa perdida que não vai levar a nenhuma parte, a sua vida não vai mudar nem uma vírgula, não haverá um terremoto do outro lado do Atlântico. Idiotas que não compreendem o momento justo em que se afastaram do resto da humanidade, como foi que se passou isto para acabar perdido e silencioso e sossegado entre o caminhar da multidão.

Então levanta as asas e sai voando. Bate contra o tecto de cristal, quebra-o e vai fora na noite.

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