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Sebastião olhava a tatuagem de seu pai e não sabia parar. Não conseguia deixar de rir. Quase não podia acreditar que acontecera de verdade, e por muitas vezes que lhe contavam a história não podia imaginar os tempos antigos foram tão malucos. O número de identificação permanente tatuado na pele… que governo do demo pensaria em fazer essa falcatruada? deveu ser um sono, um conto de velho para entreter as crianças, isso era. E porém, aí tinha os dígitos em vermelho, num braço que já gastara as forças da vida.

-e doeu-che muito, papai?
-doeu. Queriam que doesse. De propósito. “Sempre lembrarás”, diziam, e foi verdade
-ha, ha, que bom, é um falar, não é? não seria para levar a sério… e todos os da tua geração levam um?
-todos até que rematou…, não é algo para estar orgulhoso, sabes? muitos luitaram e morreram para não levar um destes, mas depois o que se passou com….
-não comeces outra vez com o mesmo…
-eu sei, agora é diferente, e já não há, não se pode… mas naquele tempo desaproveite a oportunidade, julguei arriscar demais, e perdeu-se,… Sabes, estes números são chagas abertas que chegam até o coração, convertes-te no seu refém por sempre,….

Avonda. O rapaz não continuou a ouvir porque sabia de cor as lamurias do velho, enfiou o olhar na TV e a voz das notícias encheram completamente a sua cabeça. O pobre do pai nunca aceitara as cousas como eram, e continuava a sonhar desperto, a quê tanta queixa afinal?

Houvo uma interferência e a imagem pestanejou uma fracção de segundo decimal. O chip de identificação de Sebastião, três centímetros sob a pele, devia estar a transmitir a sua posição. Uma tatuagem, ha, ha… onde tinham a cabeça? como podiam terem usado um sistema tão pouco seguro? Não admirava alguns conspirarem e escaparem, sempre há rebeldes que querem destruir a nossa seguridade e liberdade comum. Ou havia, noutras alturas.

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