O Cativo dos Cabelos Grisalhos

Quando cativo, jogando ao esconde-esconde, o pequeno idiota ficou fechado num porta-malas. A soas com monstros irritados que tamborilavam nas suas costas. Com vozes que falavam num tom tão baixo como para não perceber o que diziam e tão alto como para não poder ser afastadas. Empalideceu, encaneceu, cagou por si, e quando abriram a porta saiu correndo e chorando como uma nena. Bua, bua, todos riram dele, o nosso pobre idiota.

Antes disso gostava da obscuridade, da sensação de estar numa cova imaginária à margem da vista do mundo. Tinha alguns esconderijos habituais bastante bons. No faiado entre um colchão velho e aparelhos rotos e desarrumados, só iluminado pola pouca luz que entrava pola porta. No guarda-roupa da habitação de convidados (que nunca tinha convidados), detrás duns casacos velhos e enormes, também às obscuras. Etc. Eram bons sítios onde se agochar muito tempo em silêncio, à espera de que abrissem a porta e olhassem pra dentro… pra não ver nada. Essa era ideia, mas já eram demasiado conhecidos e cada vez era encontrado em menos tempo. E pensou num novo lugar e aí começou a sua tragédia, bua, pobre nena chorona. Entrou no porta-malas, fechou a porta e aguardou à espera durante uns minutos até que compreendeu que não servia: jamais dariam com ele.

Tudo mudou desde então, e os monstros perseguíam as suas noites, esperando sob a cama, ocultos no cinema, ou rompendo as luzes das vielas. O idiota continuou a crescer apenas porque não tinha outro remédio. Teceu um disfarce de indiferença com o que vestir os seus medos, e esquivou lugares fechados durante anos. Conseguiu ser quase normal e pensou que conseguiria salvar-se.

Terminou universidade e logo arranjou um trabalho medíocre num escritório. Apenas um começo, mas pensou que seria o final quando lhe disseram que o seu posto estava no… oitavo andar. O idiota levava anos sem ir de elevador, subindo escadas para “fazer exercício”, mas esta já não tinha remédio. Entrou, tremeu, inspirou lentamente, premeu o botão e abriu os olhos. Começou a ascender, primeiro, segundo, terceiro…. e rezou para que não se detivesse porque já decifrara o que lhe prometeram as vozes, não vinte anos atrás, senão vezes sem conta durante esse tempo. Meu bem, algum dia ninguém abrirá as portas e estaremos juntos para sempre. Quarto, quinto, sexto…

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