Em Fila Indiana

É difícil seguir a corrente, é fácil seguir a corrente.

É difícil porque tenho dúvidas sobre os meus guias. A seguridade das suas palavras contrasta com a realidade dos nossos dias que avançam devagarinho. Todas as manhãs acordamos às cegas e prometem que hoje será o último dia. E a intranquilidade do amencer esvaece-se com canções de ânimo, como a brêtema que sinto na pele desaparece com o sol. A meio-dia já estamos mais confusos, mas ainda esperançados. Ao sol-pôr, com a descida de temperatura, temos vontade de berrar a valer. Quando chega a noite melhora, porque já só estamos intranquilos e tristes.

É fácil porque não há outro sítio aonde ir, não há mais guias que estes. Cortaram-me a língua, tiraram-me os olhos. Estou mudo, estou cego. Culpável em todos os pontos. Sedição, conspiração, traição. Agora caminho colhido duma corda atada a outro cego e a outro e a outro. Imos apalpando as paredes com a esperança de chegarmos hoje e não amanhã. Não acredito em Deus, não acredito em nada, não acredito no futuro. Conformo-me com não deixar de escutar os altifalantes que com empenho chamam por nós desde algures.

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