As Peças de Deus

Quando pequeno eu já não era lá muito religioso. Odiava assistir a missa os domingos e meus pais, geração confusa em tantos temas, nunca deram boas razões (boa=alguma) polas que tínhamos de ir cada 7 dias a passarmos frio enquanto escutávamos um sermão chatíssimo. O costume faz lei, suponho. Alguma vez tentei entrar em calor, ouvir alguma mensagem misteriosa, qualquer cousa! E nada. Aquilo era uma perda de tempo, tinha vontade de me levantar e berrar bem alto:

-Já está bem, cá ninguém acredita no que nos conta o padre, nem ele próprio, só há que o ouvir para saber isso! Vamos embora tomarmos uns gelados e esqueçamos este estúpido hábito hipnótico!

Yep, para ser tudo aquilo tão transcendental havia uma falta de paixão notável. Ora, mesmo pensando na teimuda farsa, na que como por acaso devíamos jogar o nosso rol, achava que no mínimo o catolicismo era mais “verdadeiro” que as outras religiões cristãs. Simplesmente não podia entender como podia haver cristãos que não eram católicos, esta era uma impostura o.k., eu sei, mas era a impostura original. No mínimo devia somar alguns pontos extra no religiometro.

A minha seita não dera um resultado espantoso comigo, mas alguma cousa conseguira: desacreditava a competência como uma turma de tolos ou gente com vontade de molestar. Fanáticos perdidos. Deus é uma marca, e nós temos o copyright!

Mas não era assim, Deus era copyleft ou pior: de domínio público, sem direitos de autor. Até a mais burra das pessoas que caminhavam na terra tinha direito a fazer a sua própria versão co código fonte, porque não? Talvez nós fôssemos os fanáticos, os que não queriam deixar brincar os demais, caso não fosse com as nossas próprias regras. Deus era um brinquedo de Lego criado nalguma fábrica dinamarquesa e podias montar uma divindade à moda desejada.

Doía-me a cabeça. Hora de ir tomar um gelado.

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