A Vida Escarpada

Morar em Fogarinho tinha algumas vantagens. Dalgum jeito o povo (umas poucas casas, 300 vizinhos) escapara à febre urbanística que assolava o resto da costa e quase todos os residentes moravam lá todo o ano efectivamente. Alguns turistas vinham inevitavelmente no verão a visitarem o faro e as ondas a darem contra rochas, apampados como vacas comentando que linda era a paisagem, mas não gostavam de terem um mar tão aberto e em geral preferiam as vilas da parte interior da ria, com mais vida nocturna e mais serviços. Aqui só vinham de passagem.

Claro que também tinha alguns inconvenientes. Estávamos um pouco isolados e só tínhamos uma pequena papelaria-quiosque (onde eu era o único que comprava alguma cousa além dos jornais), uma loja-supermercado, um médico, um carteiro e quatro bares (todo um recorde dada a população: talvez foi este índice estatístico o que me levou aqui, isso e que não que tinha que pagar o aluguer da casa). Eu podia ter todo o que precisava com isto, mas logo mudei de ideias e ai começou a dar no torto.

Normalmente trabalhava durante a tarde depois do jantar (que também era almoço) porque sempre levantava com ressaca a meio-dia. Escrevia durante umas poucas horas e quando tinha prontas as linhas do dia começava a beber (claro), dava um passeio pola praia, outro polos bares, e volvia e continuava bebendo até ficar dormido no sofá. Uma vez à semana, mais ou menos, fazia uma visita à papelaria para comprar algum livro (o best-seller de turno), e na voltinha mercava comida para a semana (no entanto, pensando-o agora surpreende-me o pouco que comia nessa altura: o álcool era a minha principal fonte calórica, suponho). Não posso dizer que fosse uma vida muito estimulante mas o certo é que avançava nas traduções, os cheques seguíam chegando, e o meu alcoolismo não era um problema porque conseguia pagar os copos.

É o mesmo com todas as adições; enquanto continues a nutri-las não há problema. Agora pago uma hipoteca, antes pagava um alcoolismo. Um carro, um reprodutor de DVD, uma lavadora, rebaixas, um passeio polo parque os domingos, estantes arrumados, filmes que aborreço nos multicines, kebabs turkos ou kurdos ou o que for, facturas, telejornais, notícias e mais notícias, propaganda, um clube de leitura. Antes não precisava nada disto, restava-me com vinho, cervejas, e whisky, a Santa Trindade e um único Deus verdadeiro. A modo, as cousas foram apoderando-se da minha vida e agora esperto todos os domingos perguntando-me quem está a dormir comigo e o que acontecerá com o Euribor e que caralho passou com a minha vida.

E sinto-me culpável polo que acontece no Iraque ou no Sudão mas não faço nada para o evitar, se percebes o que quero dizer. Se George W. Bush decidir amanhã bombardear um outro país eu estarei diante da TV mastigando o meu rancor polos cantos como mais um ruminante, mas não moverei nem um dedo. Nem a ponta da unha. Antes o único que me importava era que não se acabasse o subministro, e isso sempre podia amanha-lo. Agora estou indefeso ante o mundo, e a publicidade converteu a realidade numa paródia de si mesma. Num gigantesco anúncio de móveis suecos e mortos do terceiro-mundo. Entretanto, eu viro o bico ao prego e faço figura de zombi à la George A. Romero. Buuu… Claro que isto não é uma defesa de nada, mas uma constatação.

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