A Vida Escarpada (II)

Estou a adiantar-me. Voltemos atrás, a quando me conservava entre os meus amigos Jameson e os 100 Gaiteiros. Normalmente, abastecia-me na loja entre as senhoras que faziam a compra e botabam uma parolada enquanto me olhavam de fite. No entanto, o meu ego impedia-me arrasar com a secção de licores. Suponho que era quase um monge mas ainda não chegara a nenhum estado zen e continuava a ter os mesmos traumas de sempre. Trauma polo que podia fazer qualquer estupidez sempre que o ocultasse à vistas alheias. Simplesmente não queria que pensassem que o seu vizinho era um bêbedo (cousa que efectivamente era), assim que comprava o mínimo para sobreviver.

As grandes compras fazia-as em Reiro. Ia de autocarro e enchia o saco nalgum supermercado onde não sabiam onde vivia ou se estava a comprar bebidas para uma festa (e era, a minha festa diária). Não gostava da viagem, 45 minutos num autocarro que ia dando voltas lentamente polas aldeias dos montes das redondezas. Velocidade de tartaruga mas não tinha mais opção.

Nessa viagem estava especialmente mal, levava três dias complicados porque a minha ex conseguira localizar-me e enviara-me uma carta na que me acusava de cousas horríveis e falsas das que não me molestarei em falar, e que quê caralho andava a fazer na casa dos seus avós e que já podia ir pensando noutro sítio onde apodrecer. Tinha a cabeça a dar voltas e, como não consigo ler nos transportes, só olhava pra fora através do cristal.

Na terceira parada à nossa espera havia uma moça realmente bela se sabes o que quero dizer, de riscos afiados como as rochas mas com boa cor, meia-melena negríssima e olhos inevitavelmente míopes (sem carregar óculos). Mais ou menos da minha idade, porque não tinha um carro próprio? Talvez gostava de viajar em transporte público, podia ser uma ecologista radical assentada realmente no rural, embora todos os ecologistas que eu conhecia não colocavam um pé fora da cidade nem que os matassem. Ou talvez não queria ter um ou o que fosse, era melhor deixar de analisar tudo, deixar de inventar vidas à gente.

O caso é. As típicas fantasias de homem começaram a aparecer, e se tal e qual? Com as mulheres é diferente, claro, ou isso é o que pensamos. Mecanismos evolutivos diferentes. O autocarro estava quase vazio mas eu comecei a fazer força mental para que se sentasse no assento do meu lado. Para animar a viagem, talvez poderia dizer alguma cousa e engatá-la dalgum jeito. Leia e traduzia sobre situações como estas quase todos os dias, mas visto agora havia muita distância com a realidade.

O autocarro começou a rodar e talvez para não seguir a caminhar no corredor a moça sentou-se ao meu carom. Perfeito, a situação ideal. Se isto fosse um documentário da National Geographic agora entrariam os violinos e Richard Attemboroug dizendo: “o predador vigia a sua presa, ccomprova a direcção do vento, prepara-se para o ataque”. O certo é que nunca fum um grande predador e não sabia o que dizer nem por onde começar. Isto não era o liceu e este tipo de relações sociais precisam doutros cenários ou quase que se consideram um ataque. Discoteca de milhão de decibélios com corpos macerados em álcool: bem. Autocarro com condições acústicas perfeitas: mal. Não sei o porquê disto.

No entanto, foi ela a que falou primeiro. Estava na boa maré.

«Não viajas muito nesta linha, não é?»- Tampouco parecia tão difícil iniciar uma conversa.

«Não, a verdade é que não, alguma vez para ir visitar a cidade e não acabar feito um ermitão. Dar uma voltinha, tás a ver? A verdade é que trabalho desde a casa e tal, faço traduções técnicas e isso, e então…»‘- Não ia mal. Muito melhor que dizer. “naaa, só quando subo para comprar mais álcool”

«Simm… ha, eu vou para as aulas de violino- e ensinou-me o estojo do instrumento-, dou aulas, sabes?»

«Genial, sempre quisse apreender a tocar alguma cousa, poderias ensinar-me»- Sorriso falso.

«Talvez» Outro sorriso falso. «Mas não és daqui seguro, onde estás a viver?»

«Em Fogarinho, na casa laranja afastada da aldeia. Tou a passar um tempinho por cá» Tentei pôr uma careta agradável, «Olha, porque sentaches comigo? Nem que me pareça mal, ao contrário, mas a gente não é demasiado faladoira»

E assim continuamos, parece que apenas queria falar com alguém desconhecido, e nuns minutos já éramos como velhos amigos confessando-nos os últimos anos que passamos sem sabermos do outro. A cousa prometia. Talvez era hora de mudar a sorte, e tentei combinar com ela para ir tomar um café após as suas aulas mas era-lhe impossível.

«Porque não me convidas a ceiar? Há muito tempo que não baixo a Fogarinho»

Isso era mexer-se. Assim que conseguira muito mais do que esperava e comecei a adorar o autocarro de merda que subia em terceira. Este sítio era uma mina. Sim, talvez era hora de ter um contacto mais perto com a população local. Sobretudo com a feminina e com a sua representante.

«Oh, que tonta! Nem sequer che dissem o meu nome, chamo-me Sara e ti?»

«Miguel, um prazer»- Não é o meu verdadeiro nome mas já tinha desenvolvido o hábito de dar nomes falsos. Sentim-me mal por mentir tão cedo. As mentiras deviam chegar mais tarde. Enfim, seria Miguel por esta noite. Chegamos e baixamos e eu fum dar a minha “voltinha” e ela pra as suas aulas. Tinha que pensar em que fazer de ceia, alguma cousa singela.

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