A Vida Escarpada (III)

Acordei quando ainda não saíra o sol. Sentia-me confuso e desorientado, parecida à sensação de espertar num sítio no que não esperávamos. Não lembrava muito da noite passada mas Sara dormia no outro lado da cama, totalmente vestida. Tentei pôr-me em pé lentamente enquanto inspeccionava os danos. Tudo parecia estar bem, doía-me a cabeça (pouco) mas isso já formava parte de todas as minhas manhãs. Sara dormia sem mover um músculo, sem fazer um ruído. Normalmente eu acordava muito mais tarde, normalmente acordava no sofá, normalmente não havia ninguém nesta casa, mas esta não era uma manhã qualquer.

Baixei silenciosamente até a cozinha. O dia anterior tinha passado boa tarde da tarde arrumando e limpando e já estava feito uma lixeira outra vez. Belo. Apanhei uma lata de cerveja no frigorífico e fum até o sofá do comedor pensando em vaguear algumas horas. Surpreende-me topar o estojo do violino, sim, trouxera o violino para tocar qualquer cousa? Lembrava o princípio da noite, mas nem muito menos o resto nem, por exemplo, como acabáramos na cama. Certamente superara as minhas expectativas, embora dadas as minhas condições de saúde era melhor não fazer-se ilusões sobre como fora realmente.

Tentei abrir o estojo mas não abria. Tinha uma puxador mas não cedia. Clack. Clack. Reparei em que também tinha um género de feche de seguridade, como os de algumas malas. Três dígitos (de 0 a 9) numa roda à esquerda e três à direita. Hum, os violinos deviam ser bastante caros, mas não seria tão difícil furtar o estojo todo e pronto, desde quando se necessitava tanta seguridade? Vivemos em sociedades paranóicas.

Inevitavelmente sentia que devia abrir o feche dalgum jeito. As proibições estimulam. Só que eram muitas possibilidades, seis dígitos com dez posições possíveis dão demasiadas combinações. Provei algumas à toa, 000 e 000. 111 e 111. 012 e 012. 123 e 456. Pensava que havia alguma probabilidade de que os números da esquerda fossem os mesmos que os da direita, para que fossem mais singelos de lembrarem. Parei depois duns minutos, isso podia levar-me a manhã toda.

Deixei o estojo na mesa. Mal me deitei, dei em pensar uma última cousa sem nenhuma possibilidade. Lentamente rodei os números até pôr a minha data de nascimento: dia-mês-ano (as duas últimas cifras). A probabilidade era ínfima, mas experimentar não fazia mal. Premim o puxador e abriu-se.

Tardei uns quantos minutos em entende-lo, em convencer-me de que não estava a sonhar ou em pleno delírio. Inspirei profundamente e revisei as fotos agora mais lentamente. Eu saindo da casa, eu indo de autocarro, eu passeando pola praia. Detrás de cada foto uma nota de hora e lugar. Também havia outras séries de fotos, homens pegos em situações quotidianas sob um olho vigilante oculto. Eles tinham uma foto que ainda faltava na minha série: na última sempre apareciam dormindo ou isso parecia. Também havia alguns cadernos e alguns frascos sem etiquetas. Nenhum violino, claro.

Voltei ao quarto sem dar polo ruído. A minha princesa estava fria como o gelo, devia levar morta umas quantas horas. Agora lembrava mais cousas. Depois da ceia preparei uns copos, deixei-nos na mesa e voltei à cozinha um bocado. Deveu botar o veneno então, só que ao chegar eu troquei os copos outra vez porque preferia o meu copo de sempre. Beber sempre do mesmo recipiente ajuda à ressaca, ou isso pensava. Aceitei o que me ofereceu sem piar, mas sei fazer jogos de mãos e asso. Brindamos e logo adormeceu. Fiquei desapontado, levei-na em braços e acostei-na na cama sem mais aquela. Eu continuei bebendo um bocado sentado no tapete até que decidim ficar ai mesmo, e passar castamente a noite compartilhando lençóis e mais nada. Questão de sorte, porque ela fizera o seu papel perfeitamente.

Ouvim um motor. Um carro estava a estacionar no quintal e eu já sabia quem era. A minha ex-mulher vinha comprovar se o trabalho fora bem sucedido. Isso já eram dous problemas, tinha um cadáver na cama e outro em caminho. Decidi-no aginha, sim, mas não sei se tinha outra opção dadas as circunstâncias. Mais que vingança era sobrevivência, ela era capaz de tudo e se fora quem de chegar até o meu buraco uma vez, podia tenta-lo outra, com melhores métodos e obviando a subtileza. Esta noite faria uma pequena viagem nesse mesmo carro e enterraria dous pacotes na cala mais escondida da costa. Tinha a certeza de que ninguém sabia que elas estavam aqui e passariam muitos dias até que alguém desse polas desaparecidas (fosse quem fosse a violinista da morte).

Eu seria o principal suspeitoso, é claro, mas tinha tempo para preparar uma boa história para a polícia. Ainda não estávamos divorciados, nuns poucos semanas volveria à cidade e anularia o processo de separação de bens (eu não tinha nada, diga-se a verdade). Ter estado tão perto da morte foi como uma catarse instantânea, o destino joga com cartas marcadas e agora que por acaso tinha quatro ases era hora de renascer.

Ia ser uma noite longa.

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