Ganhar Tempo

Talvez o primeiro dia pensou: «Uh, sim, agora é que farei alguma cousa importante, logo que o Nosso Senhor me deu esta nova oportunidade e tal». Só porque era o primeiro, porque depois chegam o segundo e o terceiro e os outros. Não podia, que fazer, como superar uma ressurreição? Era o truque dos truques, era jogar noutra categoria, noutra liga, noutro planeta. Mais uns poucos anos no reino das lágrimas não seria grande cousa. No melhor dos casos, uma anedota dadas as circunstâncias. Uma nota ao pé da página. No pior, a tortura de enfrentar os olhos dos que tanto choraram por ele, qualquer expectativa que tivessem seria atraiçoada e cada erro seria uma decepção. «Volveu e ainda não deixou de fumar, será testám!» «Buuu, contou-me uma maçada sobre pesca, a sua paixão de sempre; e dizia que não lhe apetecia falar “disso”, que desagradecido» Lembras quando Buffy, a caçadora de vampiros, ressuscita após o conjuro da Willow? É isso mesmo, desespero, angustia, solidão, alienamento, não pode enfrentar o mundo, não outra vez, como seguir na mesma?

Quando Lázaro ressuscita não pode continuar como se nada acontecera. Não vai dar palestras de 10.000 € a hora sobre “Como Estar Morto”, não vai assistir a reuniões de Ressuscitados Anónimos, não vai ir da mão de Tony Soprano junto da analista, não há unidades de atenção para a sua patologia. Nada. E porém, a gente quer conhece-lo, quer perguntar-lhe como se sente, que pensa fazer, como foi… os fariseus querem mata-lo (again). E ele só quer esquecer e desejar que isto nunca tivesse acontecido. As crises de angustia suceder-se-iam constantemente. Acordar envolto em suor frio, pensando que os lençóis são parte da mortalha.

Eu tenho uma teoria, narrativamente falando, que explica esta situação de beco fechado e a pretensa inutilidade. Jesus e Lázaro, porventura, são a mesma pessoa. Como Superman e Clark Kent. Primeiro matas a pessoa, e depois o herói. Isso explicaria a súbita aparição e desaparição de Lázaro, irmão figurado de Marta e Maria Madalena. Morre, ressuscita, e esvaece-se no ar? Julgo que Lázaro só é uma licença poética, como um desdobramento da personalidade ou um treino em petit comité. Só pra a família e amigos, a função chegará no seu momento, vaiam comprando bilhetes enquanto o artista prepara o espectáculo mais grande do mundo, vão ficar de boca aberta.

Ainda, este ardil é a gota que faz transbordar o próprio Jesus. Tiveram muita paciência enquanto exorcizava demos e curava leprosos e cegos mas pôr os mortos a caminhar foi demais. É ressuscitar Lázaro e nesse momento (umas linhas por baixo, literalmente) Caifás decide que o assunto foi além do aceitável, os fariseus decidem matar Lázaro e Jesus. É a hora da conspiração. O alucinado evangelho de São João precipita-se.

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2 Comments

  1. Posted Fevereiro 1, 2007 at 2:36 am | Permalink

    Olá amigo dando um passeio polo google encontrei teu blog, o qual tinha umha linda ligaçom para meu patético blog assim que por curiosidade entrei nele e achei interessante demais. Desde hoje fica você adicionado aos meus blogs favoritos que são poucos mas bem escolhidos.

    Receba um saúdo cordial e preguemos ao ceio para que a vida eterna nom exista.

  2. Posted Fevereiro 1, 2007 at 5:08 pm | Permalink

    😉

    Pois muito bem-vindo, meu. Uma aperta.


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