O Exército de Fredge

Os macacos de Ludwig Fredge declararam-se em greve. Em mais de doze anos sem interrupção de Produções Mecanográficas S.L. nunca tal cousa acontecera e os supervisores iam arriba e abaixo dos seus corredores sem saber que fazer, emudecidos após os primeiros minutos a darem as consignas habituais. Tinham ensaiado simulacros de incêndio e outras catástrofes (até fizeram um protocolo contra terramotos no trimestre que Cardinal ameaçou a cidade), nada comparável a isto.

Por sua vez, os operários falavam animadamente distribuídos em grupos pequenos. A incerteza apoderava-se de medrosos e valentes enquanto as discussões progrediam alheias às ordens. O monótono som como de locomotiva mecanográfica fora trocado por conversas bem diferentes em tons e intensidades. A gigantesca fábrica de finais perdidos no horizonte parecia absorver pior este género de ruído; por primeira vez dava uma verdadeira ideia do seu tamanho.

Alguns, quase sempre entre os mais veteranos, não foram por esta medida porque preferiam continuar como sempre e esquivar-se dos sarilhos. Não hesitavam em expor as suas críticas a quem as quisesse ouvir, mas o certo é que também deixaram de digitar. Talvez não estivessem convencidos de como demo foi que chegaram aqui, mas estavam metidos na mesma crista da onda e só podiam rolar ou afogar. Sabiam que na hora da verdade seriam julgados como um bloco homogéneo.

A uns poucos metros de altura sobre o chão, abriu-se a porta do escritório. Fredge deu três passos até o corrimão. O silêncio expandiu-se como uma sombra e logo todos os macacos tinham os olhos postos no seu amo e senhor, no desconhecido que regia as suas vidas encadeadas às maquinas de teclas. Como eles, Fredge era dos que só choram com a dor física.

Deu instruções para exterminar os rebeldes e volveu dentro do seu escritório. Começaria de zero. O vírus da soberbia não tem cura, quando aposentado no coração. Conseguiria nova força operária porque já tinha as máquinas, não importava que lhe levasse meses ou anos. É uma mágoa, mas…

Lentamente, alarga a sua cauda preênsil e pendura-se do seu galho favorito.

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