Últimos Dias

Os mesmos idiotas que me odiavam, agora amam-me. Poderia pedir qualquer cousa por estúpida que for. Debe ser a única vantagem de estar a morrer. Adquires um grande poder sobre a gente, convertes-te numa espécie de herói. Não há nada de valente no que estou a fazer: estou a morrer, seus idiotas. Faria qualquer cousa por o evitar. Mataria o teu cão e violaria a tua filha, ou violaria o teu cão e mataria o teu filho, e faria-che comer os seus intestinos enquanto te corto a ti também. Faria todo isso e mais, extinguiria as baleias, invadiria países e meteria as minorias em campos de concentração, desflorestaria a Amazónia, poria-te no meu lugar sem hesitar um segundo, prenderia lume na minha colecção de Spiderman (ok, também não é questão de exagerar).

Os últimos dias de Peter” de Burl Fuller não é um livro como para ler aos teus filhos. Basicamente, é um romance que conta a transformação de Peter, um filósofo e marido exemplar, pai amantíssimo dos seus filhos, melhor colega, etc… numa má besta que mete medo. Nós conhecemos directamente o segundo Peter, o que é anti-tudo e uma verdadeira máquina fascista de criar cadáveres fora de qualquer moral. O primeiro deixa-se conhecer só através das opiniões dos seus familiares e conhecidos que vão sendo devastados (e alguns, literalmente despedaçados) polo nosso novo filósofo favorito. Peter também fala de si próprio, antes da sua nova e cintilante personalidade, como «o anterior eu», como se fosse outra pessoa totalmente diferente, um tipo que não acreditava em nada do que fazia nem no que escrevia (ironicamente, e não muito engenhoso polo autor, fazia parte da corrente do «Existencialismo Feliz») mas que «continuava» por um estúpido sentido de lealdade à raça humana. Fingia.

Quando se lhe diagnostica um cancro, alguma cousa faz click no seu cérebro e decide terminar de vez com as hipocrisias. Reconhece os seus vícios ocultos de amador da cultura popular e tira o disfarce de snob intelectual; a banda desenhada, os filmes ultra-comerciais, as drogas sintéticas e toda uma série de conhecidas e não-tão-conhecidas afeições sexuais, um novo sistema de crenças é construído. Mas isto tampouco lhe satisfaz, e aos poucos vai deixando totalmente a realidade com o objectivo declarado de não sentir nenhum tipo de emoção. Cá começam as crueldades psíquicas e físicas, as torturas, etc… como não sente dor, cria dor para se tornar no Criador. Alguma cousa deste género.

Fuller recria assim temas e tópicos da literatura contemporânea à moda de, por exemplo, Bret Easton Ellis ou Palachniuk: a solidão dentro e fora à vez dos nossos círculos emocionais, a necessidade de (auto) destruição, a utilização da violência como um recurso vital definitivo e de felicidade instântanea e garantida a troco de quase que nada, um alucinado exagero das preocupações habituais das classes médias do Ocidente de finais e começos de milénio (que talvez sejam as mesmas de sempre). Tudo para concluir que estamos longe de qualquer cura possível porque nós somos a enfermidade.

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