Os Ciúmes da Sexta

Foi Ela quem começou. As suas mentiras volviam-me tolo. Eu sabia o que fazia porque tinha o melhor detetive do país, o Senhor Paciência. Todas as sextas às seis da tarde e seis minutos, Paciência vinha e contava-me com a sua voz monótona e profissional. Eu ficava lá na cadeira, olhando para um palhaço triste que temos num quadro, sem dizer nada. O palhaço e mais eu, os dous escutávamos sem mais aquela, o palhaço sustinha uma andorinha e eu uma bolinha anti-stress; de qualquer jeito acho que éramos bem parecidos, fulminando-nos o um ao outro. Paciência terminava, levava o seu ordenado semanal e mal saia pola porta pois volvia ao trabalho.

Durante as nossas sessões Paciência sempre deixava um seu ajudante, o Senhor Situação, mas o chefe não acreditava na sua competência profissional e o certo é ela já se lhe escapara um par de vezes. O informe da próxima semana sempre tinha qualquer cousa estranha nessas duas horas de vigilância de Situação, como se fossem situações que, conhecendo Ela como a conhecíamos, poderiam ter acontecido… mas que por alguma razão não tinham as traças de realidade como as de Paciência. As de Situação eram perfeitas. Demasiado perfeitas, qualquer história precisa dalgum erro de continuidade para ser verídica, é assim como distinguimos a ficção.

Fum ver Situação, sem lhe dizer nada a Paciência. Estava tão nervoso. Não foi difícil que se derrubasse. Não, nunca a seguira, não tinha talento para esses trabalhos, ele era feliz lá no seu escritório com a contabilidade, as facturas e os arquivos, atendendo telefone, combinando os encontros com os clientes. Sempre tinha trabalho. Sim, inventara tudo, não foi difícil, simplesmente pegava nos rascunhos de Paciência e modificava-os, já o fizera com outros clientes. Resta com mudar uns detalhes para ter uma história totalmente diferente. Sim, demasiado realistas, o senhor tem razão, não pensara nisso. Sinto-o muitíssimo. Não diga nada ao meu chefe, serei mais competente, farei o que o senhor quiser.

Foi então que tivem a ideia. Escreveria pra mim. Ou melhor dito, sobre mim pra ela. Inventaria historinhas parecidas às suas. Ou piores. Eu de protagonista, por fim entraria na sua vida como o actor principal. Fora do cenário que lá vou eu. Não foi difícil que Ela mordesse o engado. Situação ofereceu-se através de correios anónimos, tenho uma informação que lhe pode interessar. Ela acreditou em tudo desde o começo.

Sim, são esses cadernos. Asseguro-lhe que não há uma palavra verdadeira em todos eles. Situação e eu escrevemo-los como se fosse um roteiro, tenho álibis precisos para todas as páginas.

Não, não pensamos em que podia acontecer isto. É claro que não. Queríamos fazer-lhe dano, que sentisse ciúmes, só isso. Nunca pensamos que fora fazer isso. Olhe, eu nem sequer conhecia a senhorita Outra. Foi azar, qual é a possibilidade de que um personagem coincidisse com a senhorita Outra? Uma entre um milhão. Mesmo trabalho, mesmos cabelos, mesma altura, mesmo apartamento, mesmo nome, até tinha um cão idêntico só que de diferente nome, este último dado Ela não deveu comprovar. Outra não devia existir fora das páginas, estava no lugar errado. Sinto muito que isto acontecera.

Não, eu não sabia que Paciência também inventava tudo, como podia? Era muito melhor escritor que Situação, era simplesmente perfeito porque era mais imperfeito. De ter sabido… não, não sei onde pode estar Paciência. Perdeu-se algures no meu passado.

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One Comment

  1. Daniela Mendes
    Posted Fevereiro 4, 2007 at 10:27 pm | Permalink

    Puxa! Acho que você foi um feliz encontro… mas vc me encontrou primeiro. Fico curiosa para saber como. Um beijo, volte sempre.


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