Aranha

Hoje sou uma aranha. Fio a minha rede e espero polas vibrações. O inverno é temporada baixa e há que ter paciência, tens de contar com isso. Ligo o canal de desportos na TV por cabo e apuro a visão panorâmica dos meus quatro pares de olhos. Umas gajas estão a esquiar na neve (claro) com uma espingarda ao lombo. Os desportos modernos.

Então um imenso tubo aparece. Mete muito ruído e achega uma estranha corrente de ar. Nunca vira um furacão tal por este canto da região. Oh, não, está a sugar-me para dentro, parece uma espécie de transporte ultra-rápido e gratuito. Sinto-me como num filme futurista transportado por tubos de sucção, só que ainda existe uma fenda tecnológica notável até chegarmos lá. Por enquanto todavia não é uma viagem confortável. Vou rompendo o meu exoesqueleto contra o metal, um ruído estrondoso ensurdece-me, a poeira que gravita comigo não me deixa respirar, as curvas são traumáticas. É quase pior que ir de comboio Vigo-Porto. Quase.

Chego a fim do caminho. Estou desorientado, assim que tropeço na soleira e caio ao mar. Augas frias como sempre. A um milhão de quilómetros daqui, a minha rede vibra.

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