Arson

Chama-se Manuel Oliveira, mas todos o conhecemos por Manolinho que talvez seja um diminutivo estranho para um gajo que mede quase dous metros. Claro que não nasceu com esta altura e os nomes permanecem. Está sentado a dous passos de mim, e tem ordens de cobrar ou fazer-me dano. Muito dano.

Eu conheço-o desde há séculos, desde sempre. Morava na minha rua e de facto podias ver a sua casa desde a minha e ao invés. Apenas nos levamos um ano. Não é que fosse uma grande companha –não era precisamente o mais sabido nem o mais divertido da turma – , mas quase era melhor tê-lo como amigo que como qualquer outra cousa assim que tentávamos que não se nos afastasse muito. Manolinho sempre dizia que era difícil bater na gente, não porque isso lhe desse qualquer problema existencial senão porque têm demasiados ossos e partes duras e precisa dum jeito, não tão fácil como se pensa e tal. Ai estás a ver porque era melhor que estivesse perto de (e não sobre) ti.

Lembro que quando ainda éramos adolescentes tivemos uma estúpida briga porque os dous tínhamos um fraquinho pola mesma moça. Eu nunca fum um grande rival nestes assuntos de punhos, mas nessa altura pensava que não havia tanta diferença e que poderia compensar o tamanho com rapidez e agilidade. Um erro notável, só dá para bem nos filmes chineses. Em poucos segundos estava no chão com o nariz roto, com a respiração descompassada e recebendo pontapés dalgum estranho animal do tamanho dum edifício. Foi uma malhéira legendária, no mínimo eu não a esquecim nunca. Nem sei como acabou, suponho que algum dos rapazes, talvez Jacobo ou Chema, o tiraram de riba minha, já está bem, que o matas. Então eram outros tempos, e até o último parvo (eu, por exemplo) tinha de suportar toda essa merda durante um tempinho.

Nem fum ao hospital nem caralhadas, deitei-me no quarto enquanto minha nai soluçava e me dizia que não podia continuar assim e que aonde ia dar e tal. Meu pai não dizia nada, só estava abaixo sentado no sofá e lendo o jornal, o que até era um consolo. Acho que o velho também levara o seu na sua época e sabia que simplesmente estas cousas não se solucionam com lamúrias. Os poucos conselhos do velho sempre me foram de grande ajuda, a verdade.

*

Manuel tem a vontade ganha de viver sem muitas complicações (ele é as complicações), porque afinal o seu é tempo emprestado por usar uma expressão da que gosta muito. Tempo emprestado, meu, lembras aquela noite? Poucos dias depois do nosso incidente, a sua casa começou a arder no meio da noite por todos os cantos. Os seus país e irmãos conseguiram sair logo da casa, mas esqueceram o irmão mais velho que era o único que dormia no andar superior. O fume era tão espesso que Manolinho estava desorientado e sem saber aonde ir.

Conseguiu uma ajudinha inesperada. Um tipo vestido de negro dos pés à cabeça entrou no seu quarto com uma singela máscara de respiração na boca e outra numa mão. Manuel pôs a mascarilha de sobra e seguiu o desconhecido por o único caminho livre de lumes, polo faiado até a clarabóia e daí um salto até o terraço dos vizinhos. Nunca ficou claro quem era o homem de negro, Manuelinho nunca chegou a ver-lhe a face e primeiro pensara que fora um bombeiro. Em realidade, os bombeiros chegaram dez minutos depois do seu resgate, e o homem de negro esvaeceu-se no ar sem deixar nada detrás.

Depois disso, a família de Manuel mudou de bairro. Ele seguía a vir por cá, mas já não era o mesmo e a distância inevitavelmente provocou algumas mudanças. Por exemplo, eu ganhei a moça pola que me partira a cara (não merecera a pena; mas isso soube-o depois, quando casamos). E a minha relação com Manolinho melhorou muito, não era o mesmo compartilhar todas as putas tardes que só as tardes e as noites do sábado. Logo éramos melhores amigos, como o pão e o leite.

*

Os anos passaram e o nosso colega conseguiu dar com o «jeito», nem começou a trabalhar para Cobas (o senhor Cobas para ti) há… sim, os seus bons quatro meses e já diz conhecer quase todos os truques do ofício. Todavia pode ser considerado um amador do cobro organizado de dívidas, mas podes apostar a que tem talento no negócio.

E de apostas vai o assunto que nos tem hoje reunidos. Eu sabia que a sorte vai e vem como lhe peta e da importância de se retirar a tempo,… mas vira-o tão claro, foi como se o sonhasse, o nosso caro Rápido perdera os quatro últimos jogos de visitante mas não jogara mal, eram campos dificultosos,… e agora tinha as apostas 5.3 a 1. Os do Sporting não pareciam grande cousa, só valiam o russo da defesa e o brasileiro na extrema direita. Os demais, merda. Fiei-me da minha intuição (5.3 a 1, 5.3 a 1) porque os nossos rapazes mereciam a minha confiança. Afinal, eu ganhara apostando contra eles. Era hora de mudar o rumo.

Naturalmente perderam. Johanssem começou fazendo uma bola pra nós bem cedo no jogo, aos 10 ou 15 minutos, mas os do Sporting fizeram duas antes de terminar a primeira parte e nada aconteceu na segunda. Tudo tinha um ar como suspeitoso da tranquilidade com que se aceitou o resultado durante e a derrota depois, mas seria inútil fazer nenhum protesto, contra quem? Eu estava desapontado, como é bem natural. O normal quando apostas 5 a 1 é que perdas, mas até esse momento eu tivera fé no meu radar.

Manolinho não tardou em vir pola casa (eu levo uns dias sem pôr um pé fora). Ofereço-lhe uma cerveja porque afinal somos amigachos (teoricamente), e senta no sofá como sem dar polo assunto, metendo conversa com um colega e tal. Misturar amigos e negócios, já se sabe. Penso que talvez está à espera de que eu (e não ele) fale do meu futuro cadáver rio abaixo. É certo que ganhei algumas boas apostas lá atrás, mas também que as facturas não deixaram de chegar todo este tempo.

O meu amigo/cobrador não tem uma licenciatura em Económicas mas até ele deve saber que levo meses a gastar por cima das minhas possibilidades, um televisor do trinque (e não furtado, por uma vez), o carro a funcionar depois duma eternidade, a minha ex deixou de contar no bar os seus problemas para cobrar a pensão do filhote… as cousas estiveram a correr bem durante uma época para a cigarra, mas agora chegou o inverno e as formigas vão-lhe bater caso não pagar até o último cêntimo.

Falamos de negócios, agora?
Tenho preparado o discurso. Começo a falar, esta aposta vai ser a tudo ou nada.

*

Cobas examina a foto do meu corpo. Estou pálido e deitado contra os ladrilhos, um rio de sangue a nascer no monte da minha cabeça. Manolinho pede desculpa, foi um acidente e agora a dívida não se pode cobrar, não há problemas com o cadáver porque sabe tratar desses assuntos. Todavia é um amador e a merda acontece. Os demais pagarão mais rápido do que nunca.

É o bom de ter amigos. Às vezes podes contar com eles. Manolinho devia-me uma. Eu salvara-o. À partida pensou que mentia, que era talvez a pior escusa que podia ter inventado para salvar o cu. Tive de lhe ensinar o fato negro, as mascaras de quando fizera o curso de Formação de Pintura 101 (que abandonei imediatamente) e que nos concederam um pouco de ar essa noite… eu salvara-o, sim, sim, eu próprio, essa noite tinha pensado sair fazer um trabalhinho (a recuperar o tempo perdido) e só estava à espera de mais escuridade. Vira o lume desde a minha janela , baixei, peguei nas máscaras, cruzei a rua, subim as escadas do edifício vizinho, saltei desde o terraço até a clarabóia, fum polo faiado, atopei-no e ensinei-lhe o caminho de volta. O seu tempo emprestado era meu, devia-mo.

Não dissera nada porque nessa altura estávamos bem zangados e pensei que era melhor não me dar nenhum mérito, além de que me seria difícil justificar a minha indumentária e algumas das minhas pertenças ante bombeiros e polícias. Assim que deixei que fosse como um género de vingança maluca: malhas num colega e salva-che a vida, parecia um filme pra tv dos sábados de Antena 3.

O demais foi singelo, uma pouca de maquilhagem, sangue falso, alguma pancada de verdade para maior sensação de verdade, uma foto do cadáver, e um bilhete para algures, para nenhuma parte. Ia contra a sua ética profissional, mas eu era uma excepção. Devia-mo. E pra mim, era o único jeito de não deixar suspeitas, de não ter ninguém detrás e de conservar as ganâncias.

Já digo, quase melhor tê-lo como amigo que como qualquer outra cousa. Quase. Foi isso o que pensei há 12 anos quando provoquei o incêndio da sua casa para poder resgatar o pobre idiota (e de passagem afasta-lo um pouco da minha vida). Tinha razão meu pai. Ainda melhor que fazer amigos é fazer reféns. Nunca sabes quando os necessitarás.

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