Herói

Quando pequeno eu era o único que podia cicatrizar feridas (as minhas, não as dos demais). Era o meu superpoder secreto, levava qualquer arranhadura e nuns poucos dias já tinha um tecido novo idêntico. Mágico. Os testes foram sempre acidentais e incompletos, mas bem se podia ver que se funcionava com pequenos cortes pois melhor funcionaria com os grandes. Pura lógica.

Uma rapariga chegou a furtar-me o coração, e passei dias sem fim polas regiões polares na sua procura até que comprovei que, devagarinho, estava a agromar uma nova maça dentro do peito. Espantoso. O velho terminaria em eBay, suponho, mas esta era a prova definitiva da minha quase imbecilidade invencibilidade. O importante era manter o segredo até achar alguma utilidade concreta, alguma motivação pessoal e íntima para combater o mundo do crime organizado. Um novo herói prestes a aparecer.

Mal descobrim que estava a contagiar a minha habilidade como por osmose, os meus planos foram adiados indefinidamente. Ainda o resto de heróis, os que tinham superpoderes mais invulgares, pareciam esquizos e antes que combaterem, pareciam atraírem os problemas às suas cidades, às suas famílias… e deixavam os maus em cárceres ou psiquiátricos de mínima seguridade dos que sempre volviam mais enrabechados do que nunca. Aquilo não era pra mim. Que tinha eu a ver com eles, e que tinha em comum com a gente que deveria defender? Nem sequer tinha muito em comum comigo próprio.

Arrumei o disfarce enquanto a noite afundia a cidade. Sentia-me culpável por estar tão seguro e a salvo entre paredes que não caiam sobre mim, com telefones que não chamavam por ajuda, com um tecto que não deixava ver os mísseis balísticos que voavam tele-dirigidos até alvos de nomes estranhos. Metaforicamente falando. E não só.

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