A minha vida como robô

Abro o vidro e cheiro o ar frio e fino dos eucaliptos. Fecho o vidro. Estamos a entrevistar o grande poeta, Mónica e eu, Mó e mais eu, Mó, Mó, a minha mónica e eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu

Bem, eu só tiro as fotografias.

e a Mónica é a que faz as perguntas.

A sua é a parte que serve para encher os espaços nos que não podem ir nem em imagens nem em manchetes, click, não tão sério, porque todos sabemos que a maioria não vai ir além disso, click, descontrai, click. A gente gosta tanto de ser levada a sério… um par de perguntas e respostas sem ser interrompidas e serão felizes para sempre, a maioria das vezes nem sequer escutam as perguntas, simplesmente parolam do seu durante uma ou duas horas num monólogo auto-construtivo nada improvisado.

Pobre Mónica.

Comigo é diferente. Não sabem posar e podes brincar com eles durante um bocado, click, e se experimentamos algo diferente, click, sobe a esse valado e faz como se fosses um equilibrista, click, a maioria nem se queixa, click, porque uma má imagem vale muito mais que mil palavras boas. Ou isso pensam eles, click, óptimo. Durante uns minutos sou o verdadeiro master of puppets e depois desapareço, click, já está pronto, obrigado. Pode começar a entrevista de verdade, o senhor pode falar da sua obra imprescindível para o futuro da raça humana.

Antes estava pirado pola Mónica. E como sempre acontece, eu negava qualquer cousa além da amizade enquanto os da redacção já sabiam tudo. Amizade, e uma ova. E infelizmente até a Mónica tinha ouvidos, acho. Que todo o pessoal fosse ciente do meu fraquinho provocou algumas mudanças na minha rotina, já não vou tanto pola secretária da minha Mó, e não por falta de vontade… de falar um bocadinho do tempo e brincar dos chefes e do mundo, e desenhar raparigas de cabelos compridos e olhar triste nos seus postites e até escrever porcarias nas suas mãos quando mais atarefada estava para que as apagasse com saliva como com dissimulação, e deixei de lhe escrever mails sem símbolos tipográficos e nos que não contava nada. Deixei porque não queria parecer tão desesperado como de facto estava. Ou estou.

Já agora, apenas sou mais um bloco de gelo. Os blocos de gelo têm algumas vantagens, não molestam, não falam demais e podem fazer o seu trabalho refrigerante sem darem nenhum problema. Esquece o técnico, esquece o manual de instruções de merda. Ora, também não são o mais divertido do mundo. E derretem aginha.

Não conheço muito (nada) do poeta, e Mó emprestou-me o “Como matar pombas com a solidão”. É o que estou a ler agora, enquanto espero na carrinha. Estou estacionado por baixo da ponte dos comboios, ainda não passou nenhum, esta zona fica um pouco afastada de quase tudo. A verdade é que esta leitura não é assim tão ruim, há algumas linhas com força, eu nunca entendim o de deixar tanto espaço em branco porque há que matar muitas árvores para tão poucas palavras, claro que também são só 30 e poucas páginas… para quê mais… devo ter escritas muitas mais linhas doídas a Mó que as que há nestas folhas, claro… provavelmente. Só que de todas as palavras, só umas poucas dim qualquer cousa.

Penso nisso, e noutros temas nos que enfiar uma conversa na viagem de volta. Já se conhecem os dias e não escurece tão rápido, ainda voltamos com sol. E as minhas placas solares talvez consigam carregar totalmente as baterias, pouparei um bocado o consumo da rede.

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