Sonho Duplo

Deus acordou com um berro silencioso. Tivera um pesadelo apavorante e tinha o corpo envolto em suor, a barba branca enovelada, e muitas pulsações para ter estado em repouso total. Deu-se graças por não ter genitais porque neste momento nem os encontraria. Na sua omnisciência sabia que o melhor jeito de evitar os maus sonhos recorrentes é lembrá-los imediatamente. Tentou não mover um músculo para trazer os detalhes à memória, conjurou uma caneta do vazio e registou:

«Muitas traças de realidade, tamanhos reais, cores factíveis. Estou a dormir, estou deitado, intranquilo, mexo-me a um lado e outro, olho-me como se estivesse fora e adentro ao mesmo tempo. Acordo, suspiro, e caminho polo corredor até a casa de banho. Olho-me no espelho; estou careca e barbeado. Tb tenho máculas pola pele e sinto uma enorme comichão, começo a coçar e doe-me. Tento refrescar-me com auga e a pele derretesse como se eu fosse uma bruxa dos contos. Pânico. Rompo o espelho, os nós dos dedos ensanguentados. Tiro um papel do bolso onde está escrito «isto não é um sonho». Mente. Acordo.»

Foi até a casa de banho. A barba estava no seu sitio e seguia careca mas também estava ontem. Isso não devia tê-lo assustado. A pele estava bem. Reparou em algo, tinha uma pequena espinha no nariz. E estava… como a crescer, oh, estava a acontecer outra vez? Não, não era nada. Odiava estes sonhos dos que era tão difícil sair, dos que pensas que acordaste e segues a sonhar, e acordas outra vez e outra e ainda estás na armadilha. Sonhos duplos, triplos, quadruples. Experimentara com uma técnica budista de sonhos lúcidos, mas fizera-lhe mais mal que bem. Não confiava no budismo, para ele era uma outra pseudoreligião de tolinhos, só que com mais estilo do que o comum. Deus era agnóstico.

Bateram na porta. Foi abrir e umas das chamadas Testemunhas perguntou-lhe se acreditava na sua própria existência. Todavia devia estar a sonhar.

«Porra. Eu não acredito é em vós! Fora da minha mente!» Tirou o papel: «isto não é um sonho».

Deus acordou com um berro silencioso. Tivera um pesadelo…

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