Ninguém pra te esquecer

O homem invisível apanhou uma doença extra. Amnésia. Esqueceu que ninguém o podia ver e começou a falar com nós sem se preocupar pola sua ausência de visibilidade. Ao princípio metia um pouco de medo, uma voz desde o vazio, ou desde uma parede ou uma cadeira. Mas logo curtimos estas conversas, e também que a maioria das vezes só falamos pola linha telefónica interna. Até o preferimos, antes sempre tínhamos a dúvida de se nos estaria a espiar, a roubar as nossas ideias, ou a desarrumar as secretárias (e não, era eu e a minha desordem). Nem que tivéssemos motivos para desconfiar, mas sempre existia esse comichom no fundo dos nossos corações e nada podíamos fazer (ia contra a nossa ética pessoal, além da política anti-discriminação da empresa). E ele é muito melhor companheiro agora, antes tinha tanta vergonha de si próprio que apenas falava, quase nem o conhecíamos. Resultou que gostamos das mesmas bandas; emprestou-me álbuns dos Moptop, dos Detetives, dos Mão Morta, e dos Papaqueijos. Devolver-lhe-ei os discos, sei que já nem sabe onde os deixou.

Ora, faltou a vários reuniões de Invisíveis Anónimos e já podemos dar por perdida a sua recuperação. O seu trabalho também não adianta muito.

Os médicos asseguram que não é contagioso. Acho óptimo, mas a tomar duche na manhã só contei nove dedos nos meus pés. Começo a desaparecer. Ou talvez tenha nove (e não mais) desde sempre. Nem lembro.

Anúncios

Publicar um Comentário

Required fields are marked *
*
*

%d bloggers like this: