Burroughs

Antes de começares a ler isto.

Quero que penses em todas as cousas. Todas as que ninguém deve conhecer de ti. Sobre ti. Não penses que vai ficar oculto para sempre. Alguém já sabe, neste momento. Será revelado cedo ou tarde, se não fizeres nada. Arruma as provas e destruas. Já mesmo. Não as deixes em qualquer parte, não penses que nunca serão achadas, que ninguém tem interesse na tua vida privada. Todos querem saber. E uma vez comece, não poderás fazer nada.

Ficas advertido.

Antes de ter internete, António tinha outro jeito de apanhar o conhecimento musical livremente distribuído. O carro entrava na oficina, abriam-lhe uma ficha, o cliente ia tomar um café ou passear, o mecânico começava a reparação e antes de que tivesse tempo de tirar e pôr filtro de óleo nenhum, já o Tó inspeccionara gavetas, porta-luvas, e reprodutor para confiscar e copiar qualquer produção audiovisual interessante. Só tinha de ser rápido e, ainda, atender o seu trabalho administrativo.

À tardinha, com as portas fechadas e o chefe rumo a casa, reuniam-se os companheiros mais novos da turma (Luís, pintor, Xanzinho e Marcos, mecânicos, e mais ele, palhaço) e examinavam e experimentavam a pesca do dia. Às vezes trocavam os altifalantes dos computadores polo sistema de som dalgum Tiger ou dum G27, e tudo soava melhor dentro duma destas bestas esticados polos sofás. Até tinham reprodutor de DVD e não havia semana que não apanhassem algum filme do trinque, mas não gostavam muito dos filmes por causas diferentes (Marcos achava todo cinema contemporâneo uma perda de tempo porque os video-games eram o cinema do futuro, para Luís todo filme que não fosse albano-kosovar com legendas em turco não fazia sentido, o último que vira António era My Own Private Idaho havia séculos, etc…).

Ora, armaram-se em expertos musicais. Certo é que a qualidade era variável e que não podiam escolher ou seleccionar à vontade, mas dada uma mostra suficientemente grande o único que precisas apenas é de Paciência. As suas discotecas estavam a crescer com o mínimo esforço possível, e sempre tinham a opção de estender os círculos de redistribuição/compartilhamento. E para António não era a música, senão o tempo de estarem todos juntos a descontraírem. Como esse concerto com música da que nem gostas, mas adoras ao mesmo tempo apenas por estares aí.

Concedia-lhe vida extra mais outra noite, fazendo brincadeiras, discutindo sobre a última tolada do chefe e como o negócio os encarcerava mentalmente que já nem conseguiam ir a seguir da jornada. Talvez deveriam começar a dormir na nave, poupariam tempo porque de qualquer jeito dai quase só saiam pra ir dormir, mas, ei, assim é como funcionam as cousas neste país, e pior é não ter trabalho.

Também havia cousas mais bizarras: filmes pornô de companhias americanas e suecas, e algum filme home-made de pornô (de muito mais valor polo seu exotismo), cd’s com fotos da viagem às Canárias ou à Eslovénia, um rascunho digitalizado de uma banda desenhada (“Flopr e e os Esqueletos”, busquem nas suas lojas), uma base de dados (com dúzias de nomes, direcções e datas) duma empresa chamada «Tele Malhadas», exames de matemáticas e astronomia, cursos de russo para polacos, suspeitosos planos sobre o Banco Friwtger de Berna, Suiça, catálogos de parafernália nazi, havia um cd que tinha centos de listas de prós e contras desde deixar a mulher até trocar de marca de caramelos, todos os episódios de Egas e Becas, todas as versões e edições da Bíblia,… enfim, a gente é rara, ou eram raros os poucos bits conhecidos da sua vida, nesta altura qualquer idiota pode descarregar quer a receita dum caldo de cenouras, quer a da montagem duma bomba. É a era do conhecimento, o teu vizinho é uma célula e só está a esperar para estourar a sua sabedoria em mil pedaços pequenos.

Esta é a razão pola que limparás o teu carro antes da próxima reparação. Pola que mentirás ao teu médico. Pola que ocultarás a verdade ao teu advogado. Porque a intimidade não existe além da tua imaginação.

E agora, o final.

Essa tarde António escolheu o carro errado. O meu.

Levou-me tempo entender que acontecera alguma cousa. Demasiado nervoso. Só estava a cobrar mais uma factura.

Tenho olho para estas cousas e no entanto levava 70 kms de auto-estrada quando… Ele sabia-o. O disco, seguía no guarda-luvas mas com a cara de gravação ao invés de como a deixo sempre. Busquei uma saída, dei a volta.

Quando cheguei estavam a discutir com o aperto no coração. Diante do ecrã. Essas fotos eram privadas. Expliquei-lhes a situação, esse contido era proprietário e a licença custava mais dinheiro do que poderiam sonhar, não podia fazer a vista grossa, era uma questão de professionalidade. Assim que tirei mais umas fotos para a colecção. Quatro, para sermos precisos. Ficaram bastante bem, seria um collage bem interessante, um cenário inédito. Levou-me uma eternidade limpar. Fora o meu erro. Há que pensar em todas as cousas. Sempre.

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