Duas Cores

Sempre pensei que Cinza era alguém em que confiar. Não direi cá o tópico de que todos temos duas faces e blá, blá, eu sei o que é ser contraditório e ter várias opiniões sobre o mesmo assunto, ser um camaleão dependendo da gente que te rodeia, eu tenho os meus dias luminosos e os meus dias azuis, etc, mas, olha, não tem nada a ver com a pura psicopatia.

Ao princípio sentira-me um bocadinho desapontado no meu novo posto. Na minha antiga secção sempre estávamos a fazer brincadeiras e as minhas companheiras Laranja e Violeta adoravam-me porque eu sou fácil de gostar (infelizmente, também sou muito mais singelo de esquecer). Cinza é sério como um juiz que não encontra culpáveis e ignora qualquer palavra ou careta não ligadas ao choio, e duvido que esqueça nada. Nunca.

Foi uma mudança importante. A Cinza só lhe importam os prazos e os objectivos. E uma pausinha para tomarmos um café? Uma piada sobre os de Psicologia Aplicada? Uma conversa sobre nada? E se ligamos o rádio durante uma hora tão só? Não, não, não, não. Expliquei-lhe vezes sem fim que os objectivos não eram para serem levados a sério, nós só os alcançáramos três ou quatro vezes (por acaso) e automaticamente foram incrementados. Mas ele está angustiado pola ideia de estar a fazer alguma cousa mal, assim que trabalha horas extraordinárias, não trapacea com os números (até onde eu sei, insólito neste negócio), e nunca improvisa.

Tolea-me. Para a empresa é um trabalhador modelo, para mim só é uma tortura. Mas não importa quantas vezes o preso bater a cabeça contra a parede que o funcionário só virá às horas assinaladas. Indirectamente sou obrigado a seguir o seu ritmo. Anos de aprendizagem lenta e constante de como esquivar o trabalho duro para nada. Conseguimos os objectivos: não fizemos celebração, e automaticamente foram incrementados em três virgula cinco por cento. Não tinha muitas opções, e depois de trocar e-mails com as minhas ex-companheiras para me compadecer tontamente, aceitei o destino. Naveguei rio abaixo muito tempo, chegou o inverno e tenho de caminhar penosamente por cima da auga congelada com um cara-de-pau, isso farei.

Com estes antecedentes, surpreende-me quando se oferece a levar-me a casa. Nem imaginas o rápido que vai. Não consigo ler os cartazes (demasiada velocidade) e este não é o caminho. Deveria dizer qualquer cousa. Não digo nada e só reviso o cinto de segurança. Ainda pior é quando pergunta se quero divertir-me. Não quero mas não escuta, Cinza já não está comigo, está a fazer a sua própria viagem, está a aterrar num satélite desconhecido. Acelera até que deixamos atrás os últimos faróis, e apaga as luzes. Sorri e apaga as luzes. É um gesto singelo que transforma toda a nossa existência. Já não somos dous camaradas de volta à casa na noite sem lua. Agora somos um projéctil invisível a bater contra a casca do ar.

É como se estivesse a vê-lo desde fora. Como se estivesse a não ver desde fora. Plano relâmpago, a minha sombra através do pára-brisas; plano geral, os dous focos apagam-se, a figura metalizada desaparece da cena, a estrada e a terra chã desvanecem, a obscuridade acompanha a imagem durante uns segundos. Os títulos de crédito rolam branco sobre preto. Um muro, branco e de cimento vegetal, aguarda por nós algures.

A tinta espirra violentamente sobre o papel.

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