De viagem

Não sei porquê dei em pensar que morrera o meu pai. Naquela altura estávamos distanciados. Enfim, cousas que acontecem nas famílias, uma discussão que começa ou termina por qualquer idiotice e os anos compartilhados que exigem o seu resgate. A notícia imaginária da sua morte, longe e afastado de mi, só acrescentava mais culpabilidade na batedora emocional de mágoa e tristeza. Sonhei que começava a chorar. Tanto que enchia um novo mar com as minhas bágoas. Mal comecei a afundir, sentim-me melhor. Já não ouvia vozes do passado. Ia muito frio, os raios solares só alcançavam uns poucos centímetros de profundidade, e entre as algas soavam canções que falavam da minha vida, da parte que fora bem. Quando o meu corpo esgotou o sal comecei a aboiar, emergim, e já estava longe, bem longe da costa. Os remorsos de novo porque as gaivotas olhavam de fite sobre mim. Devia voltar e enquanto durara com o esforço não teria nenhuma outra preocupação. Rumei até a praia. Podia sentir os músculos estirados, as pernas pedalavam, os braços acompanhavam, respirava cada três braçadas. Não sei quanto tempo estivem a “nadar”. Quando cheguei a terra já era de noite, e Paulo insistia no timbre da porta. Contei-lhe isto. Pensei que era um bom conselho e telefonei a meu pai, disquei com as unhas verdes e podres. Entre os dous fundimos a pedra, abraçámo-nos através da linha e combinámos um encontro, tudo estava bem, tudo ia melhorar, um coral estava a nascer na minha roupa interior. Baixei com Paulo, a cidade esperava por nós.

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