A pele das circunstâncias

Nusa Ohen,
é o único que lembro dos anos 90
não podes imaginar
pura magia
não sabia correr
não sabia defender
não sabia saltar
não sabia sofrer
não sabia jogar numa equipa pequena
e nunca estivo noutras
mas como jogava
meu, como jogava

só precisava duma bola
ao pé, não a 30 ou 40 centímetros nem nada
então parava
enquanto os demais seguiam correndo
os defesas já estavam na linha da área
os outros avançados já estavam em fora de jogo
o árbitro perguntava se devia apitar qualquer cousa
e Nusa parava
dava uma volta coa bola controlada
trocava de perna
tic tac
reviravolta
e lançava
as redes pescavam um pequeno milagre envolto em coiro
a terra devorava a relva e aparecia a praia
um inofensivo punho contra o ar abria os céus
bandeiras azulíssimas ao vento

a claque adorava-o
o resto do público odiava-o
negro de merda, diziam
que não corres
e Ohen não dizia nada
não se importava com ser negro,
não se importava com correr, não correr
e nós também não
só esperava a sua chance
nós
os que somos estrangeiros em todas partes
os que chutamos com a perna errada
os que não sabemos sofrer e sofremos como ninguém
nós esperámos e esperamos com ele

é nestes dias de inverno, quando o mar traga os meus irmãos
que eu penso em Nusa Ohen, sim, penso em Nusa Ohen

meu, como jogava

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One Comment

  1. Posted Fevereiro 23, 2007 at 11:37 am | Permalink

    canto tempo , cantos recordos, Iru,Bellido,Tocornal;o gran Nacho, Vendaval Moure, Fabiano….. Santa Isabel….o Caneda e Fidalgo precursores dos tonechos, e nos voltaremonos vellos e Ohen seguira correndo a mesma velocidade máis como xogaba meu, como xogaba.


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