A íntima queda das cousas

Avó. Chamou-me avó e não é o meu neto, é um cuidador tão preguiceiro como para não apreender o meu nome. Como pensam que não entendo nada, mas entendo, oh, claro que entendo. O que não quero é falar, é o meu único protesto possível neste cárcere tão limpo no que me confinaram. Que pensaria o meu homem? Não o aceitaria, tirar-me-ia daqui dalgum jeito, ele tinha mundo, andou embarcado polo mundo adiante, e até foram presos em Capetom. Já tinha idade como para se reformar e foi ele quem os sacou daí que bem se entendia com todo o mundo. E porque o mar fala galego, eh, que já o dizia ele, que falava um pouquechinho de inglês só que em galego e pronto, inglês em galego, há uma língua para tudo. A minha vizinha Maruja que estivo emigrada nas Bascongadas dizia que lá os cães só atendem basco ou ficam as ovelhas sem recolherem. Sei-cá não lhes presta outra língua.

E agora eu aqui com o aparelho ligado todo o santo dia, eu que nunca tanta tele vira porque sempre andei ocupada que nunca faltam trabalhos, só a novela seguía porque algum vício há que ter, e agora todo o dia com as notícias estrangeiras que nem entendo esse seu falar tão esquisito, como a avó já não distingue entre uma garrafa e um submarino, isso pensam, pois deixam este canal, ainda se tivesse o meu patrão para me traduzir alguma cousa. E eu não falo, só assisto imagens que parecem dos tempos da guerra, só que então não filmavam as tragédias e levamos o nosso, mas olha que também fomos pra diante com valentia e não enterrávamos os velhos em vida. Que uma cunca de caldo nunca lhes ia faltar na mesa, não senhor…

Eu estava tão bem na minha casa, eu governava lá, andava dum lado pra o outro e tinha a Micho que me fazia companha. Mas foi uma pequena queda e um braço roto. E já começaram que se ia velha e que uma casa tão grande pra mim. Eu feliz porque pensava que ia ter o morgado e a nora a cuidar-me, que ingenuidade. Agora a casa foi pra a imobiliária, eu pra a residência, e Micho sequestrado e adoptado pola neta.

E quando me visitam, quase nunca nestes dias que são sempre os mesmos, comentam como a avó reconhece a sua neta Marisa, está a sorrir, ha, e não é por isso, não. Eu quero bem à pequena mas sorrio é porque a cativa leva na roupa um pequeno cheiro ao gato. Micho sempre gostou de dormir nalgum embrulho perto da sua dona.

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