Noites de Hotel

É terça-feira. Não chove e é uma novidade. Mudamos de terras, mudamos de país, e a auga só nos acompanhou uns quilómetros fora das suas fronteiras habituais. Não pagaria as portagens e deu a volta. Nós continuamos na estrada, avançamos centos de quilómetros por dia mas perdemos muito tempo com as pesquisas, estamos até dous ou três dias no mesmo local. Depende.

Penso que o do tempo é um bom sinal, levávamos dias sem fim sob as nuvens e a investigação progredia mais lentamente. É como se a gente tivesse mais dificuldade em falar, sempre podes confiar no sol, introduz-se na pele, ganha a sua confiança e fam-se mais confiados. E mais inofensivos. Foi um inverno duro e durante umas semanas pensei que perdêramos qualquer pista, que estávamos condenados a vagar à deriva. Com o verão ninguém perguntará pola escolarização de Lua mas ainda temos muitos meses de respostas incertas, nós que fazemos as perguntas. A sua é a escola em casa, a escola em movimento.

Eles perseguem-me. Eu persigo-a. Há diferenças.

Todos os quartos são parecidos, frios, impessoais. Há qualquer cousa sinistra nos hotéis, são sítios onde os teus fantasmas podem esperar por ti durante séculos. Só devem estar lá. Há alguma probabilidade de que por acaso coincidas no hotel erróneo. Então pegaras o telefone e começaras a fazer chamadas a meia noite, tremendo e rezando porque alguém ao outro lado da linha esteja desperto, que atenda a tua chamada. Não pensarás na diferença horária, no incomodo, o exorcismo será o mais importante.

Este quarto não tem fantasmas desconhecidos, não esta noite. Os fantasmas somos nós, desde há muito já. Acho que levamos muito tempo perseguindo a Estrela, quase dous anos. É difícil distinguir a passagem dos dias quando contam com uma rotina tão louca como a nossa. Consiste em fazer perguntas e continuar. Mentir e fugir. Sempre há alguém que conhece alguém que conhece alguém que ouviu alguma cousa. Aí atrás alguém pergunta por nós, darão-lhe os nossos dados mas quando chegarem já estaremos na seguinte vila longe daqui. Só são uns poucos quilómetros em linha recta, mas em círculo são demasiados. Há vezes que penso que nunca daremos com ela. Também sei que nunca darão com nós.

O homem das tatuagens, das que não se desenham fora dos muros com grades, ele contou-nos. “Sempre pensei que virias, é como se estivesse a esperar por ti para poder ajudar.” Amanhã continuaremos. É o nosso destino.

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