La vera forza

Imaginas que as câmaras municipais fossem como pequenos Estados independentes?

Cada concelho estabeleceria regras sobre a cidadania dos seus moradores, diria quem tem direito (e obriga) a um bilhete de identidade permanente por uma questão de sangue e não de residência. A imigração estaria fortemente controlada e haveria controlos em todas as fronteiras. Para ir de Santiago a Corunha haveria que conseguir quatro ou cinco visados, embora fosse possível chegar a um acordo de livre circulação de trabalhadores. Os imigrantes ilegais seriam considerados perigosos, detidos – no sistema penitenciário municipal – e largados de volta ao seu concelho natal. Os apátridas teriam um regime especial e seriam esquecidos tranquilamente.

Estudar ou trabalhar fora seria complicado, só possível após ultrapassar várias barreiras burocráticas. Cada prefeitura contaria com embaixadas noutros concelhos para ajudar os vizinhos que estivessem a morar em concelhos estrangeiros – com todas as travas administrativas criadas polo próprio concelho.

Alguns autarcas seriam também automaticamente chefes de Estado, outros seriam eleitos numa votação diferente para este posto simbólico, e finalmente haveria outros que seriam Reis por desígnio divino e os seus descendentes herdariam o cargo indefinidamente. Estes últimos falariam sempre duma pretensa dignidade histórica como garante do seu status. Todos teriam um exército próprio. Fariam desfiles com bandeiras, tanques, aviões, militares desfilando na rua principal do povo sob as salvas de palmas dos seus vizinhos. Alguns concelhos teriam armas de destruição maciça como garantia da paz comarcal. Os mais poderosos seriam observados com receio polos lideres dos menos poderosos, e os lideres dos menos poderosos desconfiariam também dos mais poderosos. O medo estender-se-ia entre os cidadãos, que estarão a argalhar contra nós além da fronteira?

Os vereadores concordariam na importância de defender a soberania política, económica, cultural, militar, e afastariam interesses partidistas polo «bem municipal». Planeariam campanhas para atrair a inversão estrangeira mas também para manterem os sectores ditos estratégicos nas mãos dos empresários locais. O déficit comercial municipal seria combatido como um cancro.

Os media só informariam dos resultados dos representantes municipais, e ignorariam qualquer atenção a desportos onde não destacarem os seus heróis. As obras culturais locais teriam sempre um destaque não pola sua provável qualidade mas apenas por serem. Excepto uma pequena parte dele, o mundo seria ignorado.

Controlariam o ar e a terra e umas poucas milhas marítimas, as ondas radiofónicas, a ilegalidade da tristeza e a tolerância da alegria, o reparto da miséria, os prémios e os castigos, a voluntariedade e a obrigatoriedade, a expressão e a censura, o município espera cada homem cumprir o seu dever conforme ao decreto municipal 23/5347. Tudo seria imaginário e calado, excepto o poder. Os concelhos não seriam considerado de nenhum jeito um meio. Seriam fins, seriam em tão pouco valor um meio para os seus habitantes que se for preciso sacrificariam a sua existência por ele.

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