Os Pequenos Secretos

Desde pequeno escondo os meus pequenos secretos numa caixa enterrada entre livros juvenis. Sempre que ganho um novo secreto subo até o faiado, caminho entre a desordem, e abro o cárcere de mentiras. Tiro um Conde de Montecristo, um Robinson Crusoe, um Pequeno Vampiro, etc… antes gostava destes títulos. Foram exilados porque precisava dalguns deles e escolhim os mais populares, os mais ingénuos e inofensivos, os menos pedantes. E porque comecei novo a fazer estes exercícios de desaparição de identidade.

Abro a caixa e se tenho tempo reviso os erros passados e prometo uma mudança de atitude. Os muros continuam forrados de letras de ferro, só preciso dum pequeno furo até o esquecimento. Então chega a execução entre as ruínas. O novo não sabe que vai acontecer, pobrinho, conto-lhe qualquer historinha antes de vir cá. Logo desaparece, nuns segundos reconstruo o tecto e fim.

Sei que é um auto-engano, mas tenho este costume assente. Faço como o viageiro que secretamente odeia os turistas com os que é confundido, como o que não se importa com ir perdendo as malas de propósito se entorpecerem a fugida. O único que sei é que estou a mover-me lento demais. Secretamente tenho ganas de abrir a caixa do demo e compartilhar todo o pouco que tenho e não tenho. Deitar as cores pola janela.

Aperta o botão

A televisão de Israel vai levar uma canção chamada «Push the button» ao Festival de Eurovisão. Acho excelente uma reflexão tão séria (e concordo com ela) num festival tão idiota de música lixeira e ligeira,… mas também é um pouco bizarra, sendo como é o grupo o representante do único país do Médio Oriente com armas nucleares. A letra do tema diz num dos maiores exercícios de hipocrisia de sempre:

The world is full of terror
If someone makes an error
He’s gonna blow us up to biddy biddy kingdom come
There are some crazy rulers they hide and try to fool us
With demonic, technologic willingness to harm

They’re gonna push the button
push the button push the bu push the bu push the button

Óptimo, eu penso que a possessão e produção de armas nucleares é uma amostra duma enfermidade mental histérica. O que jão não percebo é como se pode falar da possibilidade futura dum Irão nuclearizado (e por aí vai a intenção) e porém ignorar a realidade dum Israel com a possibilidade de apertar o botão já (provavelmente um segundo antes de dar a “oportunidade” aos “outros”). Não ficam longe dos cantores os governantes tolos que se escondem e enganam, os que fabricam uma tecnologia de solução final às escondidas do mundo.

Há muitas pessoas, e até pessoas sabias às vezes, que defendem este sistema militar como uma garantia da paz mundial. Eu, como sou burro que nem um bode, jamais entenderei isto. Não se pode ter nenhuma confiança em nenhum governo ou Estado que tenha tal capacidade de destruição. Nem que seja o nosso governo -que já seria discutível, nunca são nossos-, nem que sejam os nossos filhos da puta. Ou todavia menos!! Eu concordo com James Ostrowski: para mim, a mera possessão de armas nucleares é um crime contra a humanidade.

A Circulatura do Quadrado

Sempre que quero dizer alguma cousa em positivo penso na linha de Pulp Fiction

Well, let’s not start sucking each other’s dicks quite yet.

E tudo corre mal por sempre, claro. Por querer ser objetivo demais, por querer uma estúpida imparcialidade impossível, deixo apodrecer parabéns (tb virtuais e imaginários) que já não se poderão dar. Tenho comprovado que com o tempo suficiente tudo pode ser uma merda, tal é o efeito do analise detalhado se focado desde o lado erróneo (e em polígonos com tantos lados sempre há onde escolher). Vou mudar desde já. Vou ser parcial, tendencioso, vou dizer o que sento na primeira olhada e vou deixar de pensar. Vou-me enganar dum jeito tal que não reconhecerei nada além da superfície. Que se dane o mundo.

Noites de Hotel

É terça-feira. Não chove e é uma novidade. Mudamos de terras, mudamos de país, e a auga só nos acompanhou uns quilómetros fora das suas fronteiras habituais. Não pagaria as portagens e deu a volta. Nós continuamos na estrada, avançamos centos de quilómetros por dia mas perdemos muito tempo com as pesquisas, estamos até dous ou três dias no mesmo local. Depende.

Penso que o do tempo é um bom sinal, levávamos dias sem fim sob as nuvens e a investigação progredia mais lentamente. É como se a gente tivesse mais dificuldade em falar, sempre podes confiar no sol, introduz-se na pele, ganha a sua confiança e fam-se mais confiados. E mais inofensivos. Foi um inverno duro e durante umas semanas pensei que perdêramos qualquer pista, que estávamos condenados a vagar à deriva. Com o verão ninguém perguntará pola escolarização de Lua mas ainda temos muitos meses de respostas incertas, nós que fazemos as perguntas. A sua é a escola em casa, a escola em movimento.

Eles perseguem-me. Eu persigo-a. Há diferenças.

Todos os quartos são parecidos, frios, impessoais. Há qualquer cousa sinistra nos hotéis, são sítios onde os teus fantasmas podem esperar por ti durante séculos. Só devem estar lá. Há alguma probabilidade de que por acaso coincidas no hotel erróneo. Então pegaras o telefone e começaras a fazer chamadas a meia noite, tremendo e rezando porque alguém ao outro lado da linha esteja desperto, que atenda a tua chamada. Não pensarás na diferença horária, no incomodo, o exorcismo será o mais importante.

Este quarto não tem fantasmas desconhecidos, não esta noite. Os fantasmas somos nós, desde há muito já. Acho que levamos muito tempo perseguindo a Estrela, quase dous anos. É difícil distinguir a passagem dos dias quando contam com uma rotina tão louca como a nossa. Consiste em fazer perguntas e continuar. Mentir e fugir. Sempre há alguém que conhece alguém que conhece alguém que ouviu alguma cousa. Aí atrás alguém pergunta por nós, darão-lhe os nossos dados mas quando chegarem já estaremos na seguinte vila longe daqui. Só são uns poucos quilómetros em linha recta, mas em círculo são demasiados. Há vezes que penso que nunca daremos com ela. Também sei que nunca darão com nós.

O homem das tatuagens, das que não se desenham fora dos muros com grades, ele contou-nos. “Sempre pensei que virias, é como se estivesse a esperar por ti para poder ajudar.” Amanhã continuaremos. É o nosso destino.

Dedos de tinta

Há sonhos mais cruéis. Sonhos que continuam o eco dos medos, onde as moças te deixam com uma carta e uma viagem de avião, o dia anterior ao aniversário como se fosse uma fugida da justiça. Nem era necessário. Mas como não há valor, deixam uma carta com todos os sinto e os não tinha pensado que fosse assim. São cartas estranhas, porque são tão nítidas que quase podes cheirar a tinta que se pega nos dedos. E são moças estranhas porque te amam durante um bocado

e desde há cinco minutos, ou talvez precisamente por isso

e parece que tudo vai bem e pensas que poderias ir com ela algures, a qualquer parte onde quisesse esta noite e ri como um cúmplice mas não nega. E depois vai, soa, como que assustada de tanta felicidade. Caramba, como há sonhos cruéis a 300 beats por segundo. Nada originais porque não tenho orçamento para mais, mas cruéis como montes crepusculares afogados nas rias.

Luzes Matemáticas

vinte anos atrás
o monstro sob a minha cama
desconhecia a fórmula exacta
na que conjurar o apocalipse

deveria tomar aulas
do monstro de cima da minha cama
vinte minutos atrás

Mais ou menos como todos

eu,
e a quem lançar esta palavra
eu tinha os anos da valentia
já havia outros rapazes
rendidos ante a adversidade
autênticos barteblies da primária
ou secundária

(não eu, não todavia)

ele,
ele era cego desde a nascença
tivéramos um dó cinzento por ele
durante os primeiros dias
até comprovar que era igual
os demais sempre são como os demais
naturalmente

(ele não, não todavia)

então,
podíamos bater-lhe?
o contrário seria discriminação
mais um companheiro
nunca aprenderia de que vai
a nossa irmandade de sangue,
literalmente

(não agora, não todavia)

uma venda,
e já tínhamos dous cegos
um permanente e um provisório
um ofendido e um ofensivo
a boa ação do dia
tira os teus punhos
experimenta

deixa
o teu coração
bater

(oportunidade)

Oi

ei,
estou tão feliz polo teu sucesso,
di-me como foi, como conseguiste?
oh, merda, é uma pena, assim que renunciaste
não, claro, não, não era tão importante
acho
e isso também? é um pouco triste,
lembro como tantos te seguiam
agora devem estar desapontados
tantas pedras lançadas
ou talvez estão contigo no mundo das croquetas?

eu não, eu mais ou menos como sempre
eu não tinha nada a romper
além de mentiras como esta
e também não sabia
como congelar anjos de asas negras
em frigoríficos móveis

eu som um grande desconhecido
não sei onde terminarei
mas sei onde não terminarei
como uma pedra sem catapulta

Silêncio

Deixavam a gente sonhar com o seu futuro tranquilamente. Viver na cidade ou caminhar polo deserto sem dar explicações. Não havia portas fechadas, e as janelas nunca vigiavam. Chegavam visitantes que se admiravam com a beleza silenciosa da cidade. Só durante uns segundos, porque logo se esquecem as vielas que não nos levam a nenhures. Eu tinha a vontade ganha de matar o príncipe. A sua majestade era o último descendente da tristeza da sua região, agora e sempre livre e perdida na imensidade.

O único tabu social era falar demais, porque a verdade podia concentrar-se em poucas palavras como a chuva se concentra naquele reino em poucos dias. Era o silêncio o que construía os muros, o que afastava os miúdos da idade adulta e os adultos do mundo. Eu queria matar o príncipe. Não suportava a sua real dignidade com a que deixava zarpar as cantigas da gente rio abaixo. Mas não podia porque eu era o príncipe e o único com guardas e vigilantes quando mergulhava até o fundo das augas para emergir ante os meus conformes súbditos. Ninguém conspirava contra mim, e sentia-me triste e só.